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O que explica a avalanche de cooperativas de crédito na trilha do Pix?

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Banco Central vê as cooperativas de crédito como importantes para melhorar a competividade no mercado

Bancos tradicionais, fintechs, bancos digitais, grandes varejistas e operadoras de telecomunicações. Invariavelmente, esses são os atores escalados como protagonistas em qualquer discussão relacionada ao Pix, plataforma de pagamentos instantâneos do Banco Central, que será lançada em 16 de novembro.

Sob as expectativas que cercam o novo sistema e diante do seu potencial de impactar e transformar o setor, um núcleo desse enredo é, no entanto, pouco citado: as cooperativas financeiras. O que não significa que elas estarão relegadas ao papel de coadjuvantes nesse novo cenário.

Segundo dados divulgados pelo Banco Central em 13 de outubro, das 701 instituições já aptas a entrarem em operação no Pix, 628, ou 89,5% desse total, são cooperativas, de diferentes portes. A lista inclui nomes como Sicoob, Sicredi, Unicred e Cresol.

Outras cinco representantes do segmento estão em processo de homologação para aderirem ao sistema. Para se ter uma medida da participação no Pix, hoje, existem cerca de 900 cooperativas no mercado brasileiro.

“Todos falam das fintechs, mas quem aderiu, de fato e em peso, ao Pix, foram as cooperativas”, diz uma fonte do mercado, para quem essa mobilização não aconteceria sem o incentivo do regulador. “Existe, claramente, um movimento silencioso do Banco Central nessa direção para democratizar o acesso ao sistema financeiro e, ao mesmo tempo, não desagradar os grandes bancos.”

Procurado pelo NeoFeed, o Banco Central (BC) limitou-se a afirmar, em nota, que “quanto mais instituições participarem, mais competição haverá entre os prestadores de serviços de pagamento, o que traz benefícios ao cliente e estimula a inovação no sistema financeiro”.

Há, porém, outros sinais da relevância dada às cooperativas. No Relatório de Economia Bancária de 2019, o BC ressaltou que o setor é um dos temas centrais da Agenda BC# e um vetor importante para melhorar a competividade, a inclusão e a transparência do sistema financeiro nacional.

“O BC nos vê como uma das principais alternativas ao mercado tradicional”, diz Angelo Curbani, superintendente de Desenvolvimento de Mercados e Canais do Sicoob, um dos principais sistemas de cooperativas do País. “Houve uma provocação para que aderíssemos de forma massiva ao Pix”, afirmou.

Presente em 1.972 municípios, com 3.412 pontos de atendimento, o Sicoob fechou o segundo trimestre com R$ 134,9 bilhões em ativos. No período, o sistema contabilizou R$ 67,4 bilhões de operações de crédito, alta de 21,7% sobre igual período de 2019, e uma base de 4,8 milhões de cooperados.

Apesar do avanço registrado pelo Sicoob, a participação do segmento ainda é pequena no mercado. Segundo o BC, as cooperativas evoluíram de uma fatia de 3,72% no estoque de crédito para pessoas físicas, em 2017, para 4,57%, em 2019. Já a parcela dos cinco principais bancos foi de 79,21%.

“O Pix vai criar, no entanto, uma nova dinâmica competitiva na oferta de crédito no Brasil”, observa Raul Moreira, diretor-executivo do Banco Original. “E vai permitir que cooperativas, fintechs e outros players cheguem com mais facilidade ao consumidor final”, acrescentou.

Por trás do estímulo
Para as fontes consultadas pelo NeoFeed, algumas questões podem explicar o estímulo do BC a esse elo do sistema financeiro. A primeira delas é o fato de que muitas cooperativas já têm um portfólio mais completo, quando comparado a outros possíveis desafiantes dos grandes bancos.

Em sistemas como o Sicoob e Sicredi, por exemplo, o leque inclui diferentes modalidades de crédito, investimentos, cartões, operações de câmbio, seguros, consórcios e mesmo um banco próprio por trás dessas ofertas, entre outros recursos.

“No Pix, a substituição de TEDs, DOCs é só a ponta do iceberg”, diz um executivo do mercado financeiro. “E provavelmente o BC enxerga nas cooperativas uma capacidade maior do que as fintechs de competir, no curto prazo, com os grandes bancos, porque elas têm uma oferta mais ampla e já estão prontas”, explicou.

Ao mesmo tempo, ao oferecer uma plataforma padronizada, que elimina intermediários e reduz os custos nas transações, o Pix cria condições para que essas cooperativas tenham mais independência e possam praticar taxas mais baixas e competir em pé de igualdade com os demais participantes dessa cadeia.

“O Pix vai permitir que as cooperativas, em particular as de menor porte, não precisem se associar a bancos para viabilizarem suas operações”, diz uma fonte. “Essa mesma premissa vale para as transações no varejo, via QR Code, que irão eliminar a necessidade de parcerias, por exemplo, com adquirentes”, informou.

A distribuição das cooperativas, em sua maioria, com boa presença nas regiões mais distantes dos grandes centros, e a influência que elas exercem sobre determinadas comunidades ou grupo de pessoas com interesses em comum também é apontada como uma vantagem no panorama do Pix.

“Um dos objetivos do BC com o Pix é digitalizar o dinheiro e reduzir a circulação do papel moeda”, diz Edson Santos, especialista em meios de pagamento. “E as cooperativas podem ser um atalho para isso, pois estão mais próximas dos não bancarizados e de quem lida basicamente com dinheiro em espécie”, afirmou.

Para Manoel Alexandre Bueno e Silva, head do Digital Lab da consultoria Capco, essa proximidade também pode favorecer as cooperativas em outra frente. “O Pix vai abrir espaço para ofertas específicas para um determinado grupo”, afirmou. “E elas têm um entendimento mais profundo de muitos desses nichos”, assinalou.

Outro executivo do mercado financeiro segue a mesma linha. “O fato de ter vínculo e uma identidade local muito forte pode ajudar no desenvolvimento de ofertas mais aderentes”, observou.

Corrida
O desenvolvimento de um portfólio a partir do Pix e do conhecimento das demandas de seus associados é uma das estratégias em curso no Sicoob. O sistema já está trabalhando em linhas de crédito atreladas ao sistema de pagamentos do Banco Central.

Para se aproximar do varejo, o Sicoob também está buscando parcerias com fornecedores de tecnologia para o setor, de olho em uma das vertentes do Pix, que entrará em vigor no primeiro semestre de 2021: os saques realizados na boca do caixa de supermercados, farmácias e toda gama de estabelecimentos.

“É um dos espaços no qual o Pix vai movimentar mais transações”, diz Curbani, que destaca essa solução como uma das principais maneiras de reter e fidelizar ainda mais sua base de cooperados, além de atrair novos associados. “Isso vai reduzir custos e nos dar mais capilaridade”, afirmou.

Ainda sob a estratégia de atrair mais cooperados e novos clientes para suas ofertas no âmbito do Pix, a cooperativa programa o lançamento de uma campanha de TV, rádio e mídias digitais nas próximas semanas.

De acordo com as regras definidas pelo BC, cada pessoa física poderá ter até cinco chaves para receber os pagamentos via Pix. Aberto para registro desde 5 de outubro, no Sicoob, o processo captou, até o momento, cerca de 350 mil chaves entre seus associados. No primeiro ano do sistema, a meta é chegar a um índice de 30% de sua base com ao menos uma chave cadastrada com a cooperativa.

“Quem ficar de fora do Pix, corre o risco de ficar para trás e perder um leque relevante de clientes”, afirma João Victor Alves de Oliveira, membro do Necon, instituto de finanças da Fecap, destacando outro componente por trás da movimentação intensa das cooperativas.

A corrida para captar o maior número possível de chaves não está restrito, claro, às cooperativas. Segundo o BC, já são 33,7 milhões de cadastros de identificação para o uso do Pix. O Nubank lidera com 8,08 milhões, seguido por Mercado Pago, com 4,73 milhões; pela PagSeguro, com 4,31 milhões; Bradesco, com 3,71 milhões; e Caixa, com 2,49 milhões de usuários.

Completam a lista o Banco do Brasil, com 2,14 milhões; o Itaú Unibanco, 1,75 milhão; o Santander, com 1,63 milhão; o PicPay, com 1,13 milhão; o Banco Inter, com 889 mil; e o Banco Original, com 523 mil.

“O Pix vai nivelar o jogo, mas é apenas o primeiro passo de uma agenda mais ampla do Banco Central”, diz Bueno e Silva, da Capco, que cita a implantação do Open Banking como um elemento ainda mais decisivo nesse contexto. “Há um campo fértil para inovações, mas ainda é muito cedo para entender quem serão os vencedores dessa disputa”, afirmou.

Fonte: Neofeed – via Sistema OCB/ES – 27/10/2020.