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Associada do Sicoob Crediplanalto mantém a tradição milenar das pêssankas

Banco de Histórias - Fabine Zadorosny - 400x300

A arte milenar das pêssankas incorpora uma vasta simbologia de ícones e cores, milimetricamente escritos ou traçados na superfície de um ovo

À primeira vista parecem apenas lindos ovos pintados. Mas as pêssankas são uma tradição milenar de povos que habitaram a atual região da Ucrânia e de outros países eslavos ou do leste europeu, que na época pagã, tinham o intuito de presentear os deuses e agradecer pelo retorno do Sol, na primavera, e pela esperança de uma boa colheita. Mais tarde, com o advento do cristianismo, a Igreja incorporou a tradição ao ritual da Páscoa, na celebração da Ressurreição de Cristo.

Com uma vasta simbologia de ícones e cores, milimetricamente escritos ou traçados na superfície de um ovo, de todos os tamanhos, a origem da pêssanka é um mistério. Sabe-se que a palavra provém do verbo “pyssaty”, que significa “escrever”. Alguns desses ovos, fossilizados, datam de 1.300 anos antes de Cristo. Para os ucranianos e outros povos, a pêssanka é um talismã, um objeto com poderes.

No Brasil, que tem cerca de 400 mil descendentes de ucranianos, a tradição se mantém viva com artistas como Fabine Irene Zadorosny, 34 anos, residente em Papanduva (SC) e associada do Sicoob Crediplanalto. “Uma pêssanka é uma mensagem em forma de símbolos – uma escrita simbólica, portanto, que é oferecida como presente a quem se estima, em ocasiões importantes, como casamentos, nascimentos, batizados, aniversários”, informa Fabine, que aprendeu a técnica aos 20 anos, estimulada por Dom Jeremias Ferens, arcebispo da Igreja Ortodoxa Ucraniana para a América Latina. Assim como eram oferecidas às divindades, originalmente, a pêssanka deve ser presenteada, e não feita ou comprada para si.

Fabine é trineta de ucranianos. O pai, Edison Miguel Zadorosny, que também é associado do Sicoob, desde 2010, é descendente de ucranianos, e a mãe, Sueli Teresinha Hostert Zadorosny, tem ascendentes alemães.

Uma pêssanka é oferecida para alguém com tudo aquilo que se deseja para a sua vida. A artista recebe os pedidos e transforma-os em símbolos, formas e cores. A obra é resultado de uma refinada técnica que começa com um desenho a lápis na casca do ovo. Depois é traçada com cera pura de abelha, com uma pena de metal aquecida no fogo de uma vela. “Assim como a luz ilumina a escuridão, o fogo ilumina a ignorância do mundo”, ensina Fabine.

A seguir, o ovo é mergulhado em anilina específica para pêssanka. Recobre-se novamente com cera o que quer que permaneça nesta coloração e em seguida mergulha na cor seguinte, sempre da cor mais clara para a mais escura e assim sucessivamente, até chegar ao preto. O resultado é um ovo totalmente preto, tanto pela superfície tingida por anilina como pela cera de abelha escurecida pela chama da vela. Ao final, a cera é derretida na chama de uma vela, revelando as cores e as formas desenhadas. “Até que a cera seja derretida não é possível conhecer o resultado do trabalho, pois não dá para saber como tudo se impregnou na casca do ovo”, explica Fabine.

Podem ser usados ovos de qualquer tamanho, até de avestruz. “Quanto menor o ovo, mais difícil a pêssanka”, informa Fabine. Ao longo do tempo foram desenvolvidos novos métodos de tingimento e conservação para um fim mais comercial, como por exemplo, a coloração que antes era conquistada por meios naturais como banhos de chá de camomila, resultando na cor amarela, cascas de cebola para tons alaranjados ou marrons, repolho roxo para conquistar a cor azul, etc. Agora é feita através de uma anilina que reage com a casca do ovo.

Outro exemplo é o uso de gesso ou parafina no interior da pêssanka, considerando a conservação, por serem substâncias inertes. No entanto, originalmente as pêssankas eram mantidas com a gema e a clara dentro como um modo de preservar a vida, que somada aos traços e cores escritos na superfície, são considerados como efeito de proteção e bençãos a quem a possui. A pêssanka sendo um objeto vivo absorve as energias do ambiente, inclusive de quem a escreve e, portanto é preciso estar num bom estado de espírito para confeccioná-la.

Quando a pêssanka é um presente para a família, sugere-se colocar num local de circulação de pessoas, como a sala de estar, por exemplo. Se é um presente para uma criança, pode permanecer em seu quarto, mas mantidas em local seco e arejado para melhor conservação, de modo que o conteúdo interno, com o tempo seque e vire pó, o que possibilita que a pêssanka possa durar dezenas e até centenas de anos.

“E se a pêssanka quebrar, diz a tradição, seja voluntária ou acidentalmente, ela absorveu algo de ruim que estava endereçado à família ou à pessoa que o possui e, assim, cumpriu seu papel como talismã, protegendo suas vidas, bens, plantações e animais, de acordo com os símbolos escrito em sua superfície”, explica a artista, completando que “para afastar este mal, os pedaços das cascas não devem ser despejados no lixo, mas moídos e jogados em água corrente, para que vá para longe, ou dado de comer aos animais”.

Ela explica, ainda, que as cores também possuem um simbolismo próprio e, por isso, são escolhidas de acordo com a mensagem a ser comunicada. Acredita-se que quanto mais colorida a pêssanka, maior seu poder mágico, e assim quem a possui está assistido com mais sorte, mais prosperidade, mais saúde e todas as coisas boas ali inscritas simbolicamente.

O preto é uma cor sagrada, significa fidelidade absoluta, eternidade ou nascimento. O branco é a luz divina, da pureza, inocência, virgindade, nascimento. Com fundo branco, são usadas, por exemplo, no sepultamento de crianças. O amarelo simboliza pureza e luz, boa colheita e sabedoria. O verde representa a primavera, o renascimento da natureza e a prosperidade do reino vegetal. E também felicidade e juventude.

O vermelho é vigor, esperança, felicidade e paixão. O marrom traduz a cor da terra, também associado à colheita, pois é a cor do outono. O azul representa o céu, o ar que permite a vida, magia e juventude. O laranja é símbolo de poder, resistência e ambição. Rosa é a cor da vibração e na pêssanka representa a fé e a confiança. Ou seja, há uma enorme quantidade de signos e simbologias em cada pêssanka, numa linguagem que só aqueles que seguem a tradição ou a estudam conseguem compreender.

Também os traços têm simbologias. Os verticais estão ligados ao que é divino, os horizontais têm relação com a matéria e o humano. Um círculo é o universo, completude e equilíbrio, bem como a estilização do Sol, que tem profunda relação com o divino; um ponto a origem do mundo; linha contínua simboliza a eternidade; linhas curvas sugerem movimento, defesa e proteção; quebrada é proteção; água é emoção; cruz – símbolo do cristianismo – é equilíbrio e imortalidade; pássaros são mensageiros de boas notícias; o trigo simboliza riqueza; a serpente, a cura; o quadrado, realização; chifres sugerem força e liderança; aranha é paciência; espirais têm o poder de reter o mal – e assim por diante.

Na cultura original a produção de pêssankas era uma atividade feminina. Ao término das tarefas cotidianas e depois de colocarem as crianças para dormir, as mulheres da família se reuniam para transformar ovos em pêssankas, por ocasião da vinda da primavera e demais festividades.

Os métodos de produção e símbolos eram restritos a elas, considerados segredos e herança de família, passados de geração em geração e, portanto, os símbolos, conceitos e modos de produção se diferenciavam entre as regiões e aldeias. “É uma arte profunda e cheia de significados. Produzir pêssankas é um trabalho e um modo de honrar os ancestrais”, resume.

Fabine é formada em design e tem um ateliê de roupas femininas sob medida, casuais e para festas. “Minha mãe costurou durante toda a sua vida, por isso aprendi cedo os segredos dessa arte com ela”, disse Fabine. As roupas confeccionadas pela mãe dividem espaço em uma parte da loja de produtos de caça e pesca, atividade da qual se ocupa o pai.

Fabine Zadorosny é associada do Sicoob desde 2018. “Tenho pouco conhecimento sobre cooperativismo de crédito, mas na cidade a cooperativa é muito bem vista, meu pai também é sócio e todos falam positivamente, por isso resolvi participar”, conclui.

Fonte: Sicoob Central SC/RS – Assessoria de Imprensa. Fotos: Rosane Talayer de Lima.